Na tradição do circo[1] as práticas circenses são passadas de geração a geração, de pai para filho ou de artista para artista. Com o passar do tempo, já não podendo executar os mesmos números com a mesma qualidade, os velhos acrobatas, malabaristas, trapezistas, entre outros, ensinam suas práticas circenses aos mais jovens e, para não deixarem o picadeiro e a “grande família” (o circo) terminam como clowns. Tradicionalmente, a construção do palhaço de picadeiro mostra-se arraigada à transmissão oral. Oriunda da manifestação do teatro cômico popular, suas técnicas são adaptadas e transformadas de geração a geração. A dinâmica de construção considera, ainda que de forma implícita, o exercício cotidiano e ordenado da comunicação. “A prática sistemática confere ao artista um acervo técnico e criativo capaz de abastecê-lo, permitindo-lhe liberdade em sua interação com o público. O artista acumula funções: adquire capacidade de atuar, concebe seu texto e dirige seu número (MATOS, 2009, p. 42).”
A arte do palhaço circense é carregada de teatralidade, e por longos anos ela serviu-se de outras artes e de técnicas como a música, o canto, a pantomima, a dança e a acrobacia, entre outras, que davam suporte à manifestação de todos aqueles histriões. Tais práticas ajudavam a aproximar o artista do público, provocando risos e lançando apontamentos críticos-sociais através de uma lógica oposta à oficial.
O palhaço, trabalhando sobre uma forma própria e particular de olhar e se relacionar com o mundo, busca na leveza um modo de confronto com o trágico, aliando-os em uma combinação bastante peculiar. Comumente, a comicidade popular utiliza-se de uma expressividade grotesca. A principal tendência do caráter grotesco, legado ao palhaço por aqueles histriões é o de transferir o que se mostra elevado e espiritual para uma perspectiva material e corporal. Mesclando aspectos de humanidade e animalidade, o grotesco manifesta-se por meio de um gestual que transita pelo “baixo corporal” e material (MATOS, 2009, p. 41).
O palhaço consegue conciliar o grotesco e o sublime em sua prática de atuação. Exalta a beleza ao lado do ridículo, fisicaliza o sublime e transforma o material em espiritual, destrói regras de conduta, revezando o ridículo com o elevado, numa combinação bem sucedida. “O grotesco está ligado ao tragicômico: o equilíbrio instável da conciliação entre o trágico e o risível. A manifestação tragicômica dá-se pelo confronto de uma forma cômica que, ao mesmo tempo, provoca no observador uma perspectiva inquietante em relação a uma determinada situação (MATOS, 2009, p. 41).”
Waldemar Seyssel, mais conhecido como o Palhaço Arrelia, descende de uma tradicional família circense francesa, cujos pai, tio e avô tinham a arte do clown como ofício. Se radicando no Brasil, ele relata em seu livro “Arrelia e o circo”, como se deu o seu batismo e a sua iniciação no picadeiro:
COMO VAI, COMO VAI, COMO VAI?
EU VOU BEM, MUITO BEM... BEM... BEM!
Arrelia (1905 – 2005)
Quando o trem partiu da cidade, o meu tio veio até o vagão onde eu estava com a rapaziada do circo, zangado, disse:
- Vamos ver qual é a encrenca que você vai arranjar na próxima cidade, “seu” arreliento! Vê se para com essas arrelias, ouviu?
Daí para adiante fiquei sendo o “Arrelia” da turma! Quanto mais furioso ficava quando me chamavam de Arrelia, mais o apelido pegava. Até minha mãe, quando ficava zangada comigo, exclamava:
- Você é mesmo um arrelia!
Isto aconteceu tempos depois daquela briga que me valeu o apelido. Numa das minhas vindas da escola para o circo, para passar as férias, encontrei meu pai cansado e meio adoentado. Ele estava procurando um substituto para ocupar seu lugar, isto é, para ocupar o lugar do palhaço Pingapulha. Tinha colocado à prova todos os meus irmãos mais velhos, mas, por mais que eles se esforçassem, nenhum lhe agradara e nem agradara ao público. Cheguei... e foi a minha vez de ser posto à prova. Pintaram meu rosto, deram-me uma roupa grandalhona, umas calças muito largas e uns sapatos enormes. Eu não queria entrar, pois ninguém ensaiara nada comigo! Todavia, essa falta de ensaio também fazia parte da prova e do papel que eu ia representar; ia ser o improvisador da noite, o chamado “Tony da Soirée”.
Numa algazarra danada, jogaram-me para dentro do picadeiro. Não sei se caí de mau jeito ou em cima de uma pedrinha... eu sei lá o que! O que sei é que doeu! Levantei-me capengando e devo ter feito isso de forma muito engraçada pois o público riu pra valer - talvez da minha roupa, talvez de minha expressão de dolorida atrapalhação, que sem dúvida devia parecer muito “autêntica.
Sem saber o que fazer, aproximei-me de um dos meus irmãos, que ajudava a armar um aparelho para a próxima representação; baixinho, perguntei:
- O que é que eu faço agora?!
Meu irmão sugeriu:
- Vá lá e derruba o Benedito.
Benedito era um pretinho “amarra cachorro”, que, justo nesse momento, estava enrolando um tapete, distraído e bem a jeito para colaborar no meu “improviso”. Foi o que fiz! Corri e empurrei o coitado, que caiu e se embolou com o tapete. Logo, porém, levantou-se e, querendo cooperar comigo, deu-me um empurrão... mas com tal força que eu - que não esperava - fui parar em cima de uma família que estava sentada na fila de cadeiras situada bem em frente ao picadeiro. Derrubei a família inteira! Foi um bolo danado e o público a rir cada vez mais.
Levantei-me e pedi perdão ao chefe da família. Chamando-me de palhaço bobo, ele me empurrou; fui para traz, tropecei, bati as costas nas tábuas que rodeavam o picadeiro e levei um tombo. O machucado anterior voltou a doer. Voltei a mancar... e o povo rindo... com muita raiva do pretinho “amarra-cachorro”, resolvi dar-lhe um daqueles tapas que nós, de circo, chamamos de “claque”; e o que dá a bofetada leva a mão no rosto do outro e este - fingindo receber o tapa - recua a cabeça para trás e dá uma palmada embaixo, com as próprias mãos. O efeito é o de uma verdadeira bofetada.
- Segura o preto que ele me mata!
Foi aí que meus irmãos viram que não era graça, não! O pretinho foi agarrado e levado para dentro, a muito custo, arfando de tanto exercício. O público ria e aplaudia a minha cena, que fora... improvisada. Daí para diante fiquei sendo o palhaço Arrelia - isto depois de tudo ter sido serenado com o pretinho, que aprendeu a levar bofetadas. Para novas apresentações daquela cena ao público, uma família de comparsas, do próprio circo, era posta nas cadeiras da frente. O número ficou sendo uma das atrações da noite de estréia, nas localidades por nós visitadas (SEYSSEL apud BURNIER, 2001, pp. 210-212).
Segundo Patrícia de Oliveira Sacchet:
Após uma estréia ou iniciação, ou batismo de fogo, ou pontapé no traseiro para entrar em cena, ou o que quer consideremos como um start na vida/carreira de um clown ou palhaço é natural que, ao exercer dia a dia o seu ofício, o artista vá descobrindo o seu corpo clownesco, suas gags, e, junto a isso, como parte de um jogo só, vá aprimorando a sua caracterização pessoal. Nessa dinâmica, vai sendo criada uma autonomia da figura, ocorre a descoberta da sua forma específica de trabalhar os números, tanto os clássicos, quanto suas variações e outras invencionises que lhe caem bem com a maturidade, portanto é criado um repertório mais pessoal, através de uma técnica que será aperfeiçoada por toda a sua vida (SACCHET, 2009, p. 68).
No que concerne ao treinamento do palhaço circense ela faz o seguinte comentário:
O treinamento é técnico: como cair, como bater, quando usar acrobacias, entender e decorar as sequências, etc. É um palhaço concebido de fora para dentro. A escolha das roupas e maquiagens tem muitas referências de outros palhaços e leva sempre em consideração o efeito visual na relação picadeiro e platéia (com capacidade para cerca de 2000 pessoas ou mais). O estilo vem com a platéia e não há pudor no uso de jargões e muita apropriação de comicidade alheia (PIMENTA, 2006, p.24).
E quanto ao clown teatral:
Já o clown teatral é concebido em um processo mais lento, interiorizado e, consequentemente muito particular. Explora-se uma gama de possibilidades expressivas que busca também um intimismo que não caberia no picadeiro, o lirismo, e portanto, uma emotividade mais delicada. Mas não se estrutura num espetáculo clownesco sem beber nas técnicas, gags, claques e tempo cômico do palhaço de circo (PIMENTA, 2006, p. 24).
Texto de Klaas Kleber
[1] O circo tal como existe em nossa concepção nasceu há pouco tempo. A criação do circo moderno se deu em 1768, por Philip Astley, em Londres. Astley, um ex-sargento auxiliar de cavalaria, hábil treinador de cavalos, foi o primeiro a descobrir que, se galopasse em círculos, de pé sobre o dorso nu do cavalo, teria o equilíbrio facilitado pela força centrífuga. Estava inventado, então, o picadeiro. Durante 150 anos, os cavalos dominaram os espetáculos circenses, mas pouco a pouco outros artistas se incorporaram à trupe (RUIZ apud BURNIER, 2001, p. 208). Já na época de Philip Astley, exímios cavaleiros realizavam o célebre número do “recruta da cavalaria”, em que simulavam camponeses simplórios e astutos que, com suas extravagâncias, divertiam as platéias. Naquela época também surgiu na Inglaterra a dupla branco-augusto: no trabalho de dois grandes cavaleiros do século XVIII (Saunders e Fortinelli), que exploravam os números de “grotesco a cavalo” (RUIZ apud BURNIER, 2001, p. 208).
[2] Mesmo hoje, muitos artistas não reconhecem o circo tradicional como um lugar de ensino/aprendizagem ou como um lugar de formação ou qualificação.


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