domingo, 3 de fevereiro de 2013


Maria Zoronga, um clown? Como assim?

Foram  estas  as perguntas  que fiz a  Klaas Kleber quando ele afirmou que Maria Zoronga não era uma personagem, que ela era um clown, o meu clown!
Estava em Lisboa para uma temporada de três meses nos quais faria uma Formação em Sustentabilidade e Biodiversidade pelo Projeto Inquire,  no Jardim Botânico da Universidade de Coimbra.
Cheguei em 15/01 e a primeira etapa da formação terminaria em 05/02, mas para aproveitar o custo da viagem que corria tudo por minha conta, planejei esticar a estadia e me ajuntar com os artistas que lá conhecera, na primavera passada, em um jantar na casa do primo Kleber.
Para isso havia trazido na bagagem, a própria Maria Zoronga, a boneca Abba Dara, um pandeiro, um “ovinho” , um triângulo e um tamborim e com isso pretendia aproveitar a viagem e tocar e cantar e dançar com esses artistas, além de me aperfeiçoar no teatro, é claro... Ah, estava me esquecendo do Palhaço Laranjinha!
Não é a toa que me esqueci  dele...  Nem saiu da mala, pois  Kleber nem quis conhecê-lo. Imaginou logo que seria mais um daqueles palhaços  esteriotipados, sem formação,  que se apresentavam em festinhas de crianças com piadas e brincadeiras  desconexas e descontextualizadas...  E era...Mesmo porque não havia passado de uma apresentação experimental no dia das crianças no projeto das Irmãs Passionistas , na periferia de Barbacena. Era inexperiente e cheio de defeitos embora tivesse agradado tanto aquelas crianças que nunca tinham visto um palhaço, de perto, e ainda mais, a distribuir balas...
Acabei  concordando  com ele.  “Matei” Laranjinha. A função seria mesmo da Maria Zoronga!
Como assim?  Quem era a Maria Zoronga, tão poderosa que poderia fazer qualquer coisa que quisesse?
Fui lhe contando a história dela, que havia surgido na possibilidade de me apresentar  na abertura de uma Conferência de Saúde Mental que estava para acontecer, ano passado,  no município e que era uma personagem inspirada naquelas figuras loucas, engraçadas e diferentes  que eu vira perambular pelas ruas da cidade. Contei-lhe ainda a origem do nome, de como tinha sido a reação favorável das duas primeiras pessoas que viram o primeiro texto, que a apresentação  na tal conferencia tinha furado mas que ela havia se apresentado duas vezes na escola e uma outra, no projeto das irmãs.  Que as vezes conseguia fazer rir com seus questionamentos que há muito tempo me incomodavam. E que ela estava fazendo ou falando algumas coisas que eu mesma gostava de fazer ou falar...
Foi aí que ele me explicou  que ela era o meu clown e comecei  a me interessar  pelo  o assunto     (já tinha ouvido falar em “Clown”, no  Grupo Teatral CENARTE,  onde tive a oportunidade de ingressar no Teatro, aos 47 anos de idade, e onde permaneci de jan2008 a meados de 2011. Apenas associara “clown” a “palhaço”,  na única esquete do grupo,  em que participei  como tal)
A princípio  foram conversas  e exercícios  associados à  preparação da performance que apresentaríamos na Exposição de bonecos e Concerto de nosso amigo Junior Natureza. Ele representando o Caixeiro Viajante e eu, Olivia Batista,  a passante na história “A árvore de dinheiro”, adaptada  e dirigida por Klaas Kleber. 
Feita a primeira apresentação,  hora de avaliação e acertos. A expressão facial, estava boa, apesar do lenço na cabeça, relíquia preciosa,  lembrança de uma madrinha falecida,  que estava atrapalhando a magnitude dessa expressão. A versatilidade e a mobilidade corporal na comunicação com o público e a exploração desses   movimentos, deveriam melhorar pois seriam  fundamentais para o bom desempenho de um clown que se propunha a aperfeiçoar.  No mais tudo bem! Era o começo da “evolução  de Maria Zoronga”
Sob a orientação de um diretor estudioso e experiente,  seus movimentos cresceram, seu figurino foi se enriquecendo , seus cabelos saltaram e seus olhos, sem os óculos coloridos,terminantemente proibidos por ele,  passaram a transmitir toda a minha expressividade.
Juntos com a preparação prática para as próximas apresentações, vieram uma oficina de “Corpo e Movimento”  e a primeira leitura do que viria a ser o livro “O Clown “  de Klaas Kleber. Reflexões, questionamentos e discussões também foram fazendo parte desse processo de evolução e aperfeiçoamento durante essa primeira estadia em Lisboa. E na carona da viagem, uma oficina de confecção de “Mamulengos de Vara”  e algumas oportunidades de praticar mais um pouco,  no pandeiro e no “ovinho”.
De volta ao Brasil, paralelamente à etapa de execução do projeto proposto em Coimbra, surgiu a oportunidade de eventuais apresentações voluntárias nas atividades do PROEMAM/Programa Meio Ambiente em Movimento,  da Policia Ambiental da 13ª Cia de Barbacena, dos quais, o Instituto Rio Limpo, ao qual pertenço, é parceiro.  Apresentei Maria Zoronga  na escola, onde trabalhava e na 1ª Ação Integrada de Meio Ambiente, onde  Maria e a boneca Letícia recepcionavam os alunos e visitantes.
Retornando a Portugal para apresentar o meu trabalho em Coimbra, novamente dei continuidade à busca do aperfeiçoamento artístico tendo a oportunidade de participar do lançamento do livro “O Clown” de Klaas Kleber,  em um primeiro momento na Casa do Brasil de Lisboa e a seguir na Semana de Palhaços, em Évora, eventos esses ocorridos em julho de 2012.
Também em Évora pude participar de debates  além  de vasta programação cultural nas ruas e praças da cidade, bem como na sede no grupo PIM TEATRO, organizador do evento.
Nessas idas e vindas de Portugal me apresentei em  mais  outras três escolas já me preparando para apresentar “Maria Zoronga e a Biodiversidade” no Forum Inquire que se realizaria em Coimbra em novembro .  Ciente de que não era uma personagem e sim um clown, verdadeiro...  Que poderia utilizar  de todas as minhas  experiências de vida e de trabalho,de todas as angústias pessoais e sociais que vivenciei e ainda vivencio, de todas as observações  do cotidiano de adultos e crianças,  de todo movimentos observados ao redor,  para dar vida a objetos,  contar histórias, improvisar cenas e cenários, criticar e ridicularizar a política e as ações  indesejadas dos  políticos,  debochar de conceitos e preconceitos, morais, religiosos, utilizando  toda a minha criatividade e  expressividade para brincar, rir e fazer chorar com a minha própria história.
Conhecimentos estes que pude aperfeiçoar e aplicar durante a participação na Oficina de Clown, realizada pelo Grupo Experimental de Teatro da Universidade de Aveiro .  A oficina, ministrada por Klaas Kleber , foi concluída com êxito, pela espetacular apresentação final dos trabalhos, onde cada dupla de aprendizes do ofício,  demonstrou  na prática, a importância da formação, da fundamentação teórica, dos exercícios  físicos, do treinamento corporal, facial, dentre outros, fundamentais para o aperfeiçoamento profissional e crescimento pessoal de cada um dos presentes.
E para fechar um ano riquíssimo em experiências artísticas tive a oportunidade de participar do “Auto de Natal Circense” com klaas Kleber e Anna Carminatti, pelas ruas e praças de Aveiro.
Atividades  prá “clown nenhum botar defeito”, diriam os mais velhos...

Olivia Batista
Professora Aposentada, Atriz e Educadora Ambiental
Barbacena/Minas Gerais/Brasil
Janeiro/2013








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